Marxismo e Geopolítica
Brevíssimos apontamentos, a partir de Marx, Engels e Lenin, Rosa Luxemburgo, Gramsci e Bandeira.
Érico Cardoso
Assim com nascem as teorias e escolas de economia política com o capitalismo, nasce a geopolítica com a fase imperialista do capitalismo. A criação do mercado mundial significou "a exploração da terra em todas as direções" para "descobrir qualidades novas e úteis das coisas" e promover a "troca universal de produtos em todos os climas e terras estranhas". (Marx, Grundrisse).
Assim como os marxistas não se contentam com as distintas ideias e formulações burguesas e realizam a sistemática crítica da economia política, também precisam desenvolver a crítica da geopolítica burguesa ou a Crítica da Economia Política do Espaço Mundial na atual fase do desenvolvimento imperialista.
1. A geopolítica imperialista
Karl Marx é anterior ao nascimento do imperialismo capitalista, não viu nem escreveu uma obra específica sobre "Geopolítica". O próprio termo "geopolítica" foi cunhado posteriormente, pelo cientista político sueco Rudolf Kjellén, que influenciou e a escola clássica alemã (Ratzel, Haushofer) e serviram para justificar as aspirações territoriais expansionistas das potências imperialistas. Kjellén escreveu As Grandes Potências (1905) e O Estado como Organismo Vivo (1916).
Friedrich Ratzel (1844-1904) contribuiu para a geopolítica expandindo a concepção biológica da geografia, sem uma concepção estática de fronteiras. Postulando que os Estados são orgânicos e em crescimento, com as fronteiras representando apenas uma parada temporária em seu movimento. Ratzel sustentava que a extensão das fronteiras de um Estado é um reflexo da saúde da nação — o que significa que países estáticos estão em declínio. Ratzel publicou diversos artigos, entre os quais o ensaio "Lebensraum" (1901), que significa "espaço vital", que vai ser utilizado pela Alemanha para justificar sua política de anexações na primeira e segunda guerras mundiais. Ratzel também sustentou que os EUA era um "estado entre dois oceanos", que aproveitou a vantagem de não ter vizinhos que ameaçassem sua segurança fronteiriça, o que lhe valeu enormemente o fato de não ter sido atacado em seu território continental em nenhuma das duas guerras mundiais.
Em 1923, Karl Haushofer fundou a Zeitschrift für Geopolitik (Revista de Geopolítica), que posteriormente foi utilizada na propaganda da Alemanha nazista . Os conceitos-chave da Geopolítica de Haushofer eram Lebensraum (espaço vital), autarquia , pan-regiões e fronteiras orgânicas.
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Acima, o esquema do mapa do Novo Mundo e a área de cerco "Rimland" do geopoliticólogo estadunidense Nicholas J. Spykman sobre a "Heartland". Segundo o geopoliticólogo brasileiro Moniz Bandeira, Spykman considerva que, após a Primeira Guerra Mundial, o "Heartland" se tornou menos importante que o "Rimland". Esta última faixa funcionaria como uma vasta zona tampão entre o poder naval do imperialismo e o poder terrestre da URSS.
Estas escolas que deram fundamento ao expansionismo alemão até a segunda guerra mundial foram seguidas por outras escolas de geopolítica anglo-saxônicas, igualmente imperialistas, mas destinadas a atender as aspirações de outras classes burguesas, como Alfred Thayer Mahan, Nicolau J. Spykman, Mackinder, Homer Lea, Edmund Walsh, Kissinger e Brzezinski. Desde suas origens, as teorias geopolíticas imperialistas nunca ocultaram sua aspiração de colonizar e balcanizar a Eurásia e em particular a Rússia, como se vê mais uma vez, por traz da Guerra da Ucrânia, onde este país, que um dia já fez parte a Rússia, é instrumentalizado "até o último dos ucranianos" para a estratégia de expansão da OTAN em direção ao leste, à Rússia. Em seu influente livro de 1997, O Grande Tabuleiro de Xadrez: A Primazia Americana e seus Imperativos Geoestratégicos, o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Zbigniew Brzezinski, apresentou um argumento ousado: o controle e a influência sobre a Eurásia determinariam o equilíbrio do poder global no mundo pós-Guerra Fria.
Na geopolítica burguesa predomina uma concepção profundamente materialista, de determinismo ambiental ou espacial e pela adminstração racional do espaço. Todavia esta razão obedece a lógica da acumulação de capitais. Embora também exista na geopolítica burguersa uma corrente idealista, que vê a sociedade empenhada na transformação ativa da face da terra, no cumprimento de desingios de Deus ou de uma abstrata consciência humana. Nesta geopolítica ideologizada pelas concepções de mundo da classe dominante, coexistem doutrinas de superioridade racial, cultural ou nacional, "destino manifesto", "missão civilizadora", "responsabilidade do homem branco", necessidade de "intervenção humanitária". A "geopolítica pura" é uma das principais vertentes do estudo das relações de poder entre Estados com foco determinante na geografia (localização, recursos, território) como fator primordial, tratando o mapa mundial como um tabuleiro de xadrez fixo e estratégico. Diferencia-se das relações internacionais por priorizar a causalidade espacial e física sobre ideologias. Os postulados da geopolítica pura são: 1. o controle espacial: na gestão de recursos de longo prazo e no controle de espaços geográficos essenciais; 2. Realismo: entende o mundo como um "jogo de guerra" ou xadrez, onde a posse de território e recursos naturais é o objetivo principal, frequentemente com previsibilidade de ações (ex: soberania, acesso ao mar); 3. Determinismo geográfico: a geografia molda o destino e o comportamento das nações; 4. Atualmente a geopolítica se debruça sobre velhas e novas disputas, por terras raras, controle de rotas comerciais, conflitos por recursos naturais, soberania e a influência de grandes potências.
A "Geopolítica dos interesses" é o estudo de como fatores geográficos, econômicos e militares moldam a busca de poder pelos Estados. Focada na maximização de soberania e recursos, ela envolve disputas territoriais, alianças estratégicas e influência econômica. A ordem mundial é definida por grandes potências que agem com base em interesses nacionais, frequentemente alterando o equilíbrio de poder global. Esta vertente da Geopolítica se apoia nos seguintes postulados: Poder e Território: A relação fundamental onde Estados exercem controle sobre áreas estratégicas, recursos naturais e fronteiras; Estratégia Econômica: A economia é central; acordos comerciais e acesso a recursos determinam a relevância dos países no cenário internacional; Conflitos e Alianças: Conflitos como a guerra na Ucrânia e tensões no Oriente Médio evidenciam a "Realpolitik" — a política externa baseada em interesses práticos, não ideológicos; Ordem Multipolar: Blocos como o BRICS buscam alterar a governança global, desafiando a hegemonia tradicional e redefinindo áreas de influência.
Apesar de anterior a essas primeiras escolas de geopolítica, o pensamento de Marx oferece ferramentas conceituais e metodológicas para o desdobramento de uma crítica radical aos fundamentos da geopolítica tradicional. Para entender a "geopolítica segundo Marx", é preciso deslocar o foco do território e do Estado para o Capital e a Luta de Classes. Os pilares da abordagem marxista sobre as relações internacionais e o espaço global são:
2. A Negativa do Estado como Sujeito Autônomo (Anti-Realismo)
A geopolítica clássica (e o Realismo nas Relações Internacionais) trata os Estados como bolas de bilhar coesas que colidem em busca de poder, espaço vital e segurança nacional, guiadas por um "interesse nacional" abstrato.
Segundo Marx, o Estado é um comitê executivo da burguesia. A política externa não é guiada por uma mística nacional, mas pelos interesses materiais da classe dominante em cada país. Marx analisou a Guerra da Crimeia e as intervenções britânicas na Ásia não como "defesa da honra nacional", mas como operações de proteção de rotas comerciais e mercados para os industriais ingleses. Inclusive, muitas disputas inter-estados são ganhas ou perdidas de acordo com as associações internacionais para além das fronteiras entre capitalistas ou traições a própria causa nacional por parte das classes dominantes. Muitas vezes, o andar de cima de duas nações sacrifica a luta de libertação nacional em relação a outro estado ou potência dominante, temendo que a mesma desemboque em uma luta dos trabalhadores que faça ir pelos ares não apenas a dominação do sistema imperialista, mas também a do próprio capitalismo sobre a nação, ou simplesmente por serem corrompidas por capitais externos no meio da disputa.
Um exemplo de uma situação aproximada ocorreu na dinâmica da rendição francesa na Guerra Franco-Prussiana, onde o governo provisório, após a queda de Napoleão III, utilizou tropas prussianas para sufocar a Comuna de Paris. O governo provisório, liderado por Adolphe Thiers, considerava a insurreição popular em Paris (a Comuna) uma ameaça maior do que os prussianos. Em janeiro de 1871, o exército francês, com a permissão e o apoio tático de Otto von Bismarck (líder prussiano), iniciou a repressão brutal contra a Comuna de Paris (a "Semana Sangrenta") em maio daquele ano. O governo de Thiers precisava liberar prisioneiros de guerra franceses detidos pelos prussianos para lutar contra os communards (revolucionários parisienses), resultando em uma frente única burguesa e contrarrevolucionária entre o exército da Terceira República Francesa e a Prússia contra a Comuna de Paris. Em sua obra A Guerra Civil na França (1871), Karl Marx, alemão, denunciou duramente Thiers e seu governo de Versalhes, acusando-os de coligar-se com o exército prussiano invasor para destruir a Comuna de Paris. Marx destacou que, no conflito entre o dever nacional e o interesse de classe, o governo de Thiers "não duvidou um instante em virar o governo da traição nacional".

Desde as origens, as teorias geopolíticas imperialistas nunca ocultaram sua aspiração de colonizar e balcanizar a Eurásia e em particular a Rússia
3. O "Modo de Produção", a "divisão do trabalho" e o "intercâmbio interno" como determinantes do Espaço
Enquanto a geopolítica clássica pergunta "Como a geografia molda a política?", o marxismo pergunta: "Como o capitalismo molda o espaço e a geografia?"
Na obra Ideologia alemã (1845-46), Marx e Engels escrevem:
"As relações de diferentes nações entre si dependem do grau em que cada uma delas desenvolveu as suas forças produtivas, a divisão do trabalho e o intercâmbio interno. Esta proposição é geralmente aceite. Mas não só a relação de uma nação com outras, também a própria estrutura interna dessa nação depende da fase de desenvolvimento da sua produção e do seu intercâmbio interno e externo. Até onde chega o desenvolvimento das forças de produção [Produktionskräfte] de uma nação é indicado, com a maior clareza, pelo grau atingido pelo desenvolvimento da divisão do trabalho. Cada nova força produtiva, na medida em que não é uma simples extensão quantitativa das forças produtivas até aí já conhecidas (p. ex., o arroteamento de terrenos), tem como consequência uma nova constituição da divisão do trabalho.
A divisão do trabalho no seio de uma nação começa por provocar a separação do trabalho industrial e comercial do trabalho agrícola, e, com ela, a separação de cidade e campo e a oposição dos interesses de ambos. O seu desenvolvimento posterior leva à separação do trabalho comercial do industrial. Ao mesmo tempo, com a divisão do trabalho, desenvolvem-se por seu turno, no seio destes diferentes ramos, diferentes grupos entre os indivíduos que cooperam em determinados trabalhos. A posição de cada um destes grupos face aos outros é condicionada pelo modo como é realizado o trabalho agrícola, industrial e comercial (patriarcalismo, escravatura, estados, classes). As mesmas condições se verificam, com um intercâmbio mais desenvolvido, nas relações de diferentes nações entre si.".
A passagem acima corrobora com a concepção de porque as nações mais industrializadas são as mais poderosas e exercem maior influência no mundo. A citação também serve de referência para que se compreenda melhor como a desindustrialização das potências imperialistas em detrimento da industrialização da China, detentora de uma força de trabalho correspondente a 10% da população mundial, proletarizada, transferida aos milhões, do campo para a cidade há algumas décadas e tecnicamente bastante desinvolvida, tenha convertida esta última nação não apenas em uma potência econômica, militar e tecnológica, como, na condição de superoficina do planeta, em nação central do mercado mundial capitalista de produção de mercadorias.
Marx e Engels, no Manifesto Comunista (1848), descrevem um processo que hoje chamaríamos de Globalização Compulsória:
"A necessidade de um mercado em constante expansão impele a burguesia a percorrer todo o globo terrestre. Precisa estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte."
Sendo assim, a fronteira é econômica, não geográfica: A divisão do mundo não é feita por rios ou montanhas, mas por centro (explorador) e periferia (explorada). O colonialismo é funcional: A expansão imperialista europeia não foi "destino manifesto" ou "poder naval", foi a acumulação primitiva de capital através da pilhagem de recursos, da criação de um proletariado mundial, do domínio das matrizes energéticas (carvão, petróleo), cadeias de suprimentos e agora das terras raras.
Para Marx, o espaço então, não seria plano, mas vertical. A verdadeira "geopolítica" não é a luta entre Alemanha e França por uma fronteira, mas a luta entre o Capital e o Trabalho em escala planetária. A topografia do mundo marxista é marcada por fluxos de mais-valia, cadeias globais de valor e a divisão internacional do trabalho. Portanto, a "Geopolítica de Marx" é, na verdade, uma Crítica da Economia Política do Espaço Mundial.
4. O Imperialismo como fase superior do capitalismo (Lenin e Rosa Luxemburgo)
Marx faleceu antes da partilha da África (Conferência de Berlim, 1884-85). A continuidade de sua análise geopolítica encontra-se em Lênin (Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, 1916).
A Teoria Leninista da Geopolítica afirma que o Capital Financeiro é a fusão do Capital Industrial com o capital bancário, que os bancos e monopólios precisam exportar capital, não apenas mercadorias. Isso gera a necessidade de zonas de influência exclusivas ou blindadas.
Lenin descortina o pacifismo imperialista porque a Guerra Mundial é Inevitável: As guerras mundiais do século XX foram explicadas pelo marxismo não como acidentes diplomáticos, mas como o choque inevitável entre capitalismos nacionais maduros competindo pelos últimos territórios não-capitalistas do planeta, teoria identificada também com Rosa Luxemburgo e como parte de sua guerra de classes contra a União Soviética, uma das razões principais da Segunda Guerra Mundial.
Em sua obra principal de economia política, A acumulação de capital: contribuição ao estudo econômico do imperialismo, Luxemburgo analisou como o capitalismo subsiste ao incorporar áreas não capitalistas, levando à destruição de modos de produção tradicionais e à exploração colonial. A fundadora da Liga Espartaco destaca dois aspectos da acumulação de capitais que está na base do imperialismo e que é justificada pela geopolítica:
A acumulação de capital como um todo, como processo histórico concreto, apresenta, pois, dois aspectos distintos. Um deles desenvolve-se nos centros produtivos da mais valia - nas fábricas, nas minas, nas propriedades agrícolas - e no mercado. Vista sob esse ângulo, a acumulação é um processo puramente econômico - cuja fase mais importante se realiza entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados e cujas duas fases (no espaço fabril e no mercado) desenvolvem-se exclusivamente dentro dos limites estabelecidos pela troca de mercadorias e pela troca de equivalentes. Nesse nível, a paz, a propriedade e a igualdade reinam como formas e faz-se necessária a dialética apurada de uma análise científica para descobrir como por meio da acumulação o direito de propriedade se transforma em apropriação da propriedade alheia, a troca em exploração e a igualdade em dominação de classe. O outro aspecto da acumulação do capital é o que se verifica entre o capital e as formas de produção não capitalistas. Seu palco é o cenário mundial. Como métodos das políticas coloniais reinam o sistema de empréstimos internacionais, a política das esferas de influência e as guerras. Aí a violência aberta, a fraude, a repressão e o saque aparecem sem disfarces, dificultando a descoberta, sob esse emaranhado de atos de violência e provas de força, do desenho das leis severas do processo econômico. [...] [Assim] ambos os aspectos da reprodução do capital encontram-se interligados organicamente, resultando dessa união a trajetória histórica do capital (Luxemburg, 1985, p. 308-309).
Como Lenin, Rosa via o imperialismo como a fase final do capitalismo.
Para o criador do Partido Bolchevique, vários dos mitos burgueses da luta de classes regional já pertenciam um passado distante em 1920, o capitalismo em sua fase imperialista já se tornara um sistema universal:
"A propriedade privada baseada no trabalho do pequeno patrão, a livre concorrência, a democracia, todas essas palavras de ordem por meio das quais os capitalistas e a sua imprensa enganam os operários e os camponeses, pertencem a um passado distante. O capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiroda imensa maioria da população do planeta por um punhado depaíses «avançados». A partilha desse «saque»efetua-se entre duas ou três potências rapaces, armadas até aos dentes (América, Inglaterra, Japão), que dominam o mundo e arrastam todo o planeta para a sua guerra pela partilha do seu saque." (Prefácio das edições francesa e alemã do Imperialismo, fase superior do capitalismo", 1920).
E no capítulo "VII - O Imperialismo Fase Particular do Capitalismo", Lenin compreende que o próprio imperialismo já engendrava sua superação ao monopolizar-se, de certo modo, maturando as condições objetivas para o trabalho da revolução comunista internacional:
"o capitalismo só se transformou em imperialismo capitalista quando chegou a um determinado grau, muito elevado, do seu desenvolvimento, quando algumas das características fundamentais do capitalismo começaram a transformar-se na sua antítese, quando ganharam corpo e se manifestaram em toda a linha os traços da época de transição do capitalismo para uma estrutura econômica e social mais elevada... O monopólio é a transição do capitalismo para um regime superior."
A crítica à geopolítica imperialista deve englobar também estes últimos apontamentos de Lenin, nos dando direito ao "otimismo revolucionário" em meio a barbárie e decadência dos imperialistas ocidentais, que o entrelaçamento das economias nacionais, a dependência mútua, a planificação do mercado mundial, na atual etapa do imperialismo aprofundou como nunca suas contradições internacionais em favor da socialização da produção mundial.
"quando a distribuição desses produtos se efetua segundo um plano único a dezenas e centenas de milhões de consumidores (venda de petróleo na América e na Alemanha pelo trust do petróleo americano), então percebe-se com evidência que nos encontramos perante uma socialização de produção, e não perante um simples "entrelaçamento", percebe-se que as relações de economia e de propriedade privadas constituem um invólucro que não corresponde já ao conteúdo, que esse invólucro deve inevitavelmente decompor-se se a sua supressão for adiada artificialmente, que pode permanecer em estado de decomposição durante um período relativamente longo (no pior dos casos, se a cura do tumor oportunista se prolongar demasiado), mas que, de qualquer modo, será inelutavelmente suprimida."
Um exemplo cabal deste fenômeno ocorreu nos últimos 40 anos com a China. Através do esquema da globalização da produção mundial que favoreceu a China e ao imperialismo em seu primeiro momento, acabou por converters-se no principal inimigo estratégico e geopolítico do próprio imperialismo na atualidade, sendo a produção de mercadorias centralizada e submetida a um plano central sob o Partido Comunista Chinês.
5. A crise de hegemonia dos EUA após a implosão do americanismo baseado no fordismo (Gramsci)
O comunista italiano estudou a geopolítica burguesa, elaborou um verbete em seus escritos do cárcere organizado no Caderno 2 (1929-1933).
"A Geopolítica. Já antes da guerra, Rudolf Kjellén, sociólogo sueco, procurou construir sobre novas bases uma ciência do Estado ou Política, partindo do estudo do território organizado politicamente (desenvolvimento das ciências geográficas: geografia física, antropogeografia, geopolítica) e da massa de homens que vivem e sociedade naquele território (geopolítica e demopolítica). Seus livros, especialmente dois deles – Lo Stato come forma di vita e Le grandi potenze attuali (Die Grossmächte der Gegenwart, de 1912, reelaborado pelo autor, tornou-se Die Grossmächte und die Weltkrise [As grandes potências e a crise mundial], publicado em 1921; Kjellén morreu em 1922) -, tiveram grande difusão na Alemanha dando lugar a uma corrente de estudos. Existe uma Zeitschrift für Geopolitik; e são publicadas obras volumosas de geografia política (uma delas, Weltpolitisches Handbuch, pretende ser um manual para os homens de Estado) e de geografia econômica. Na Inglaterra, na América e na França” (GRAMSCI Q2, §39).
Em Americanismo e Fordismo, agrupado no Caderno 22 (1934) se destaca um importante postulado marxista sobre a geopolítica: trata da superação da Europa pelos EUA a partir do Fordismo, das inovaçõers técnicas e orgânicas nas relações sociais e na centralização de produção industrial, da divisão do trabalho, no intercâmbio interno. Além das questões econômicas, Gramsci destacará também as demográficas (da modernização da sociedade), antropológicas (como as questões sexuais e de comportamento social), a instituição da moral pública e privada (como o advento do Rotary Club e a Maçonaria) e da política (organização do Estado) como parte da constituição do Americanismo. O fordismo foi um modo de acumulação capitalista muito bem sucedido, ainda mais, apoiado também na vantagem geográfica de não ter potências capitalistas vizinhas e de ter saído das duas guerras mundiais quase intacto e como credor dos destruídos.
Posteriormente a Gramsci, ocorreu durante os chamados 30 anos dourados (1945-1975), um crescimento extraoridinário da punjância apoiada na tecnica fordista e em todo o desenvolvimento americanista das forças produtivas. Todavia, esse crescimento que gerou a queda da taxa de lucros dos grandes capitalistas, compreendida em outra lei desvendada por Marx no III livro do Capital. A técnica fordista de produção capitalista havia gerado um acúmulo imenso de capital constante em detrimento do capial variável e este processo favorece tendencialmente a queda da taxa de lucros do capital. O imperialismo encontrou novas formas de lucratividade e acumulação de capitais, fugindo do esquema produtivo que gerava como sequela a queda de lucratividade, se desindustrializou, transferindo a produção industrial pesada para o oriente, apostando na especulação financeira da forma mais parasitária possível. E, neste aspecto vale a pena refletir sobre o vaticínio de Gramsci:
"O americanismo, em sua forma mais completa, exige uma condição preliminar, da qual não se ocuparam os americanos que trataram destes problemas, já que na América ela existe “naturalmente”: esta condição pode ser chamada de “uma composição demográfica racional”, que consiste no fato de que não existem classes numerosas sem uma função essencial no mundo produtivo, isto é, classes absolutamente parasitárias (GRAMSCI, Q22, §2).
Hegemonia é um conceito muito caro a Gramsci, é o equilíbrio entre coerção e consenso, que asseguram a direção cultural e ideológica. Enquanto viveram seu apogeu fordista, o imperialismo estadunidense se consagrou como hegemon dentre as nações imperialistas. Mas a partir de sua desindustrialização, de ter deixado de ser a oficina do mundo, que outrora fora a Grã Bretanha e agora é a China, tornou-se inegável que os EUA vivem mais do que um declínio conjuntural, um declínio estrutural no século XXI, notável principalmente na degradação de seu tecido social, no desemprego crônico, no endividamento das famílias e na deteriorização das relações diplomáticas com países adversários e também com aliados. Soma-se a esta decadência, a redução do papel de centralidade do dólar, como moeda de troca mundial e dos petrodólares como circuito de lastreamento dos títulos do tesouro dos EUA e do próprio dólar.
6. O anti-imperialismo como centro da geopolítica (Luiz Bandeira)
O historiador brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira (30/12/ 1935 - 10/11/ 2017) é a principal referência de estudioso da geopolítica no Brasil, fazendo uma crítica consistente da influência dos EUA sobre o globo. Sua obra, concluída com uma formidável triologia Formação do Império Americano (2005), A segunda guerra fria - geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (2013) e A desordem Mundial: o espectro da total dominação (2016), expõe como a geopolítica do "Império" estadunidense utiliza tanto a pressão econômica quanto intervenções diretas para manter a região sob sua órbita.
Como alertava Bandeira, "Uma potência é muito mais perigosa quando está em decadência do que quando conquista o seu império, e os EUA são uma potência em decadência. São muito mais perigosos do que antes." Para Moniz, a burguesia estadunidense operou uma "mutazione dello stato, de democracia para oligarquia, pela consolidação da ditadura do capital financeiro. Segundo C. A. de Sousa Lara a questão central de Bandeira está em seu método para encontrar as raízes da desordem mundial contemporânea, que consistiria em:
"1. Conhecer a História pertinente em profundidade;
2. Retirar dela as lições de vocação estruturante e permanente;
3. Procurar a raiz econômica de todas as causas:
4. Desenvolver a teoria do imperialismo, da dependência e da guerra;
5. Conhecer a Geopolítica Pura e a "Geopolítica dos interesses";
6. Praticar a análise do contraditório. E sobretudo
7. Ser livre, pensar livremente, custe o que custar, querer ir mais além." (Moniz Bandeira, A Desordem Mundial).
7. O objetivo maior da geopolítica, dominar a Eurásia, malogrou e provocou uma "cooperação antagônica" da Eurásia contra o imperialismo.
Durante a época das cismas entre as burocracias da URSS e da China, quando a China maoísta caracterizava a URSS de social-imperialista, o estrategista principal da geopolítica imperialista Kissinger, conseguir se aproveitar dessa divisão e plantar as bases de uma nova etapa do imperialismo: a financeirização, a desindustrialização ocidental e a industrialização chinesa. Todavia, a acumulação de capitais resultantes da financeiriação promoveu um parasitismo inédito, bolhas especulativas, crises e a própria dependência do mundo ocidental e do mercado mundial das mercadorias produzida na China. O alvo dos investimentos nos anos 80 e 90 se tornou o concorrente, sobretudo quando a China se viu ameaçada de perder Taiwan e Hong Kong pelo cerco geopolítico dos EUA, apoiado no Japão, Austrália e Coreia do Sul.
Por sua vez, o expansionismo em direção ao leste europeu e o furioso saque econômico da Rússia, a chamada terapia de choque neoliberal, acabou por revoltar aquela sociedade, quase distroçada pela contrarrevolução capitalista. Aquele outrora estado soberano energética, militar e alimentar, que havia passado por um período revolucionário pós-capitalista (1917-1991), rebelou-se para sobreviver ao imenso parasitismo ocidental, reestatizou grande parte de sua economia e foi obrigado a estreitar laços com os países da Ásia após o golpe de estado russófobo na Ucrânia e a expulsão da Rússia do g7+1 (2014) e todas as sanções ao comércio com o ocidente a partir de então, sobretudo após reagir militarmente contra a ameaça da entrada da Ucrânia na OTAN, ocupando parte deste país em 2022.
As tensões imperialistas por dominar a eurásia provocaram uma reação histórica, a cooperação antagônica (para usar uma categoria do marxista alemão August Thalheimer) dos maiores países da eurásia e seus satélites por sobreviver, ameaçando a hegemonia unipolar estadunidense com uma multipolaridade que favorece a criação de uma frente única antiimperialista de povos e nações oprimidas. A geopolítica imperialista gesta seu coveiro. Todavia, em sua crise hegemônica, como muitos impérios, os EUA buscam reconcentrar força no continente americano, onde não possui potencias rivais economicas ou militares e considera os países da América Latina e Caribe suas extensões territoriais e econômicas.
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Divisão do mundo segundo a antiga doutrina pan-regional de Haushofer, que parece estar sendo parcialmente resgatada pelo menoos por meio da reconcentração de forças dos EUA no Hemisfério Ocidental, no continente americano (sobretudo com a derrota que vem sofrendo na guerra contra o Irã), de acordo com o documento Estratégia de Segurança Nacional dos EUA (Novembro de 2025), também chamado de a Nova Doutrina Monroe ou Donroe.
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