O significado da viagem de Trump à China
Esta viagem não muda em nada o panorama de dois sistemas políticos e ideológicos intrinsecamente antagônicos. Quaisquer que sejam os acertos e acordos daí decorrentes, a perspectiva de enfrentamentos, sejam comerciais ou na geopolítica, seguem definidos: cedo ou um pouco mais tarde se enfrentarão. É inevitável.
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Charlene Frota Silveira
Esta viagem não muda em nada o panorama de dois sistemas políticos e ideológicos intrinsecamente antagônicos. Quaisquer que sejam os acertos e acordos daí decorrentes, a perspectiva de enfrentamentos, sejam comerciais ou na geopolítica, seguem definidos: cedo ou um pouco mais tarde se enfrentarão. É inevitável.
Sequer grandes acordos existiram: Trump, na opinião de jornalistas em geral, voltou de mãos abanando, como ressalta a Sandra Coutinho, correspondente nos EUA da Globonews do Brasil. Ela é enfática: fracasso total de Trump, que no retorno aos EUA se irritou com a imprensa, já que ninguém acreditou em qualquer sucesso seu. E, ao contrário, todos acentuaram o sucesso de Xi Jinping, que seguiu tranquilo nas conversas e em algum provável acordo.
Por seu turno, o analista norte americano Ben Norton destaca como Trump prejudica e muito os setores pobres dos EUA, tanto é que levou à China só figurões comerciais protegidos com isenção de impostos. Já aos pobres, nada de conceder isenções.
Os editorialistas e analistas pró-capitalismo tenderam, nos primeiros dias, vender a imagem de um Trump imponente e vitorioso; o de que foi à China e aí se impôs; que foi duro e até agressivo com Xi Jinping, delimitando os termos das discussões.Puro engano.
Passados 2 dias, a grande imprensa norte-americana agora tem que se render às evidências.
, pois no aspecto comercial a grande comitiva ianque diz que vendeu só 200 aviões boeings. A intenção era vender 500. (Destaque-se que Xi Jinping em seu comunicado da viagem não fala em tal compra, podendo ser apenas blefe do Trump, algo já inerente à sua pessoa). Em 2017, em encontro anterior dos dois, Trump havia vendido 300. Logo, agora vendeu100 a menos que em 2017 - Se é que realmente vendeu. Ainda é preciso destrinchar mais os acordos, mas o certo é que Trump também não conseguiu vender carne e soja, algo fundamental para ele.
E Xi Jinping limitou todas as questões ao problema de Taywan, já que os ianques armam esta província chinesa contra a própria China, tendo fornecido recentemente 11 bilhões de dólares em armamentos. E querendo vender mais 14 bilhões, que a indústria armamentista dos EUA não quer abrir mão de forma alguma e sendo amplamente apoiada por republicanos e democratas. E como a China não irá também ceder na questão de Taiwan, aos chineses resta, portanto, a necessidade de acumular mais forças, inclusive militares, para resolver a questão.
Daí se deduzir que a situação de enfrentamento sistema contra sistema não arrefeceu um só milímetro.
A grande intenção de Trump ao levar na bagagem uma comitiva-peso-pesado das indústrias mais importantes dos EUA e do ocidente (comunicação, cibernética, alta tecnologia de IA, aviação etc) era fazer disto um grande escarcéu. Por sua vez, isso também mostra que Trump considerava, mesmo sem explicitar, que discutir com os chineses só é possível se também demonstrar poder, e que ele (Trump) é forte e capaz de amedrontar. Mas o tiro saiu pela culatra, pois disto tudo, o determinante é o reconhecimento da poderosa força do interlocutor chinês. E isto é assim porque, claro, a China esbanja autossuficiência na quase totalidade dos ramos econômicos do país, sendo primeiro lugar em variados ítens:70% dos veículos elétricos do mundo são chineses; 80% de todos os painéis solares; 90 % de baterias, além de primeiríssimo lugar em drones e no domínio completo do ciclo das terras raras, indo da extração à produção de equipamentos altamente sofisticados e indispensáveis para as novas tecnologias. E tudo isto a faz prescindir do poder americano. Some-se a isto as diversas alianças econômicas estratégicas em todo o mundo, desbancando o império dos EUA e da Europa Ocidental, como é o caso da África, por exemplo. E a China age com naturalidade e de maneira fácil, pois sua relação com as outras nações é sempre do ganha-ganha, como já analisamos noutros artigos. E isto deixa ianques e europeus só vendo a banda passar. E sem nada poder fazer. Agora mesmo 48 nações africanas estão sentindo, pela primeira vez, o respeito oriundo de uma grande potência. E não se recuará desta conquista.
Na verdade, o que está por trás da viagem de Trump é a de tentar vender novamente aos chineses carne e soja dos produtores dos EUA, que o estão apertando, já que Trump em sua idiotice de impor tarifas aos chineses prejudicou seus próprios aliados internos. É mister lembrar ainda que Trump está devendo à sua própria população a propalada reindustrialização, bem como melhorias aos produtores agrícolas, promessa de campanha eleitoral, não cumpridas de forma alguma, sendo um dos ítens responsáveis pela grande queda de popularidade e concreta ameaça de derrota eleitoral legislativa de outubro próximo, podendo incorrer em processo de impeachment, liquidando sua carreira política.
Hoje os EUA já não se desenvolvem mais como antes, pois não há prioridade ao capital produtivo; faz tempo que a financeirização é quem determina. E esta, na sequência, captura o Estado para seus fins especulativos na economia, ao mesmo tempo em que reduz a democracia ao simples processo eleitoral, altamente viciado, onde só duas alas (republicanos e democratas) participam do simulacro. A democracia já foi liquidada pelo ICE na sua política contra os imigrantes.
O capital produtivo que teve no fordismo, com auge de 1945-1975, já desapareceu. E na época da existência da União Soviética, o capitalismo americano ainda era produtivo, pois precisava demonstrar para sua classe média, via produção de bens de toda ordem e alta qualidade, que os EUA eram superiores ao
comunismo.
Finalmente, é ridículo ver o Trump querendo aparecer nas solenidades na China, dar uma de engraçado,enquanto que Xi Jinping transborda serenidade e simplicidade, características de quem se sente muito tranquilo à frente de um país que o mundo todo reconhece como o instrumento do futuro da humanidade quando se tenha que enterrar de vez o mundo de exploração capitalista/imperialista.



