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Orquestra da Guerra Ocidental: Laboratórios do imperialismo Fúnebre

Orquestra da Guerra Ocidental: Laboratórios do imperialismo Fúnebre

Desocidentalizar nossas lutas é uma das poucas maneiras que, por meio de um internacionalismo inegociável, poderemos nos blindar dessas balas.

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Leonardo Lima Ribeiro

 

Muitos ainda não perceberam, mas há uma estreita associação entre a caixa de Skinner¹ behaviorista, Auschwitz², Nanquim³ e Gaza4. O que há de comum entre os quatro é não apenas o controle da vida mediante condutas fabricadas para seguir sempre na mesma direção (o penhasco).

Para além de uma perspectiva de tomar cada evento isoladamente, é preciso percebê-los sob o prisma de uma longa duração histórica, pela qual é possível atentar para o embaralhamento dos acontecimentos em seus resíduos no movimento de acumulação de catástrofes que, explicitamente, tendem a uma direção imperialista clara e cristalina.

Além da fábrica da morte e produção de condutas artificiais dos três últimos (Auschwitz, Nanquim e Gaza), trata-se de lembrar que tais experiências tiveram a conivência de "civilizados" cientistas, os quais, vinculados à indústria militar, confeccionaram como arquitetos grandes laboratórios (caixas-cidades abstratas, ou nem tanto assim) para testes com diversos seres humanos e novas armas de guerra5.

Tais testes, quando aplicados e bem-sucedidos, seriam (e ainda são) patenteados e aplicados no "pacífico" Ocidente pós-guerra. Os laboratórios-ensaio que eram produzidos em paralelo aos genocídios nos territórios mencionados também foram (e são) formas de o capital implementar em intensidades variáveis protocolos diversificados de controle e punição em meio à fraude pacifista, principalmente em áreas de capitalismo periférico.

O cardápio dos protocolos desses experimentos à venda imposta era não apenas um conjunto de "oportunidades" de mercado, mas algo imperativo, meio de chantagem, caso as nações mais fracas quisessem "livremente" seguir, por exemplo, com a coparticipação no sistema "internacional" de pagamentos Swift (que os EUA controlam) e, com isso, ter "imunidade" para não ser cerceado economicamente, bem como participar "voluntariamente" do farsesco livre mercado da cinicamente dolarizada "sociedade aberta" (mas nem tanto assim - a caixa de Skinner nos espia como ratos manobráveis)6.

É nesse sentido que podemos deduzir que o Ocidente se tornou uma espécie de caixa de Skinner a céu aberto. Lá onde a economia política apresenta crises em seu processo de acumulação, é preciso não apenas abrir forçadamente mercados com acordos econômicos desiguais. É preciso que, em determinadas regiões do mundo civilizado, nos tornemos os ratos de laboratório da ciência da morte, correndo condicionados por uma perspectiva de futuro artificial, com vidas repetidas e direcionadas ao mesmo campo de concentração.

Algumas regiões de países ocidentais são como Gaza ou Auschwitz em potência. Quando os ianques chamam arbitrariamente alguns grupos de terroristas, o objetivo é recolonizar os territórios por diversas vias - econômicas e militares.

Espoliar riquezas mediante acumulação primitiva sob a batuta da implementação de laboratórios de domínio e controle de parcelas da população é uma via de exceção, a qual tende a se tornar regra.

Em uma brecha, poderíamos acreditar tomar água ou nos alimentar. No entanto, são cada vez mais venenos da indústria do alimento que despejam sobre nossas bocas e preenchem nossa inconsciente sede suicidária de morte na luta de todos contra todos, destinada ao perfumado paraíso perdido que segue como disfarce nos shoppings e supermercados. E quem procura meios alternativos de vida também segue um caminho artificial, lá mesmo onde a orquestra de fundo era a de uma marcha fúnebre para nosso fuzilamento.

Desocidentalizar nossas lutas é uma das poucas maneiras que, por meio de um internacionalismo inegociável, poderemos nos blindar dessas balas7.

 

Notas de Rodapé:


¹ Caixa de Skinner: Refere-se à "câmara condicionadora" ou "caixa de Skinner", um aparato de laboratório criado pelo psicólogo behaviorista B.F. Skinner para estudar o condicionamento operante em animais, como ratos e pombos. O dispositivo isola o sujeito e controla seu ambiente, apresentando estímulos (como comida) como recompensa por ações específicas (como pressionar uma alavanca). A analogia no texto é usada para descrever sistemas de controle social que fabricam condutas e limitam o comportamento humano a padrões previsíveis e artificiais, em vez de uma crítica direta à teoria behaviorista em si.

² Auschwitz: O maior e mais notório campo de concentração e extermínio nazista, localizado na Polônia ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. Operado entre 1940 e 1945, tornou-se o símbolo máximo do Holocausto, o genocídio sistemático de seis milhões de judeus europeus, além de sinti, romani, prisioneiros políticos, homossexuais e outras pessoas consideradas "indesejáveis" pelo regime de Adolf Hitler. Mais do que um campo de trabalho forçado, Auschwitz-Birkenau foi projetado como uma "fábrica da morte" industrializada, com câmaras de gás e fornos crematórios, representando o ápice da burocracia e da ciência a serviço do extermínio em massa.

³ Nanquim: Refere-se ao Massacre de Nanquim, ocorrido entre dezembro de 1937 e janeiro de 1938, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa. O Exército Imperial Japonês, após capturar a cidade de Nanquim, então capital da China, perpetrou uma campanha de seis semanas de assassinatos em massa, estupros e pilhagens. Estima-se que centenas de milhares de civis e soldados desarmados tenham sido mortos. O evento é um dos episódios mais brutais da história moderna e permanece como um ponto de tensão nas relações entre China e Japão, dado o revisionismo histórico por parte de alguns setores japoneses.

4 Gaza: Refere-se à Faixa de Gaza, um pequeno território palestino na costa do Mediterrâneo, que desde 2007 é governado pelo grupo Hamas. O texto alude ao contexto de conflito israelo-palestino, particularmente a situação humanitária crítica e os repetidos ciclos de violência. O cerco imposto por Israel e Egito, as operações militares e os bloqueios são frequentemente descritos por críticos como uma forma de controle de uma população civil, com impactos devastadores sobre a infraestrutura e a vida cotidiana dos palestinos. O texto sugere que esta situação, quando analisada em "longa duração histórica", ecoa dinâmicas de cerco e controle de outras épocas.

5 A complexa herança científica e militar: O texto alude a um passado de conivência "civilizada" com a ciência da morte, o que pode ser vinculado a episódios específicos e distintos:

Alemanha Nazista: A utilização de judeus e outros grupos como cobaias em experimentos médicos brutais nos campos de concentração, como Auschwitz.

Japão Imperial: A Unidade 731, onde médicos japoneses realizaram experiências com armas biológicas em civis chineses. Um fato notável é que, após a guerra, muitos desses médicos foram anistiados pelos Estados Unidos em troca dos dados e segredos de suas pesquisas, um ato que ilustra as complexas e pragmáticas relações entre as potências no pós-guerra.

Relações entre EUA, Alemanha e Japão: A relação entre essas potências é marcada por profundas contradições históricas. A Alemanha de Hitler e o Japão Imperial formalizaram alianças estratégicas por meio do Pacto Anticomintern (1936) e do Pacto Tripartite (1940), formando o Eixo Roma-Berlim-Tóquio. Os EUA, em resposta à expansão japonesa na Ásia, impuseram sanções econômicas, e o ataque a Pearl Harbor (1941) levou os EUA à guerra. Após a derrota do Eixo em 1945, Alemanha e Japão tornaram-se dependentes dos EUA para sua segurança e reconstrução, alinhando-se ao bloco ocidental durante a Guerra Fria.

6 SWIFT e "Sociedade Aberta": A SWIFT (Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais) é a principal rede de mensagens para transações financeiras internacionais. O controle que os EUA exercem sobre ela, embora indireto, permite que o governo americano imponha sanções econômicas efetivas, isolando países do sistema financeiro global. O termo "sociedade aberta" é uma referência direta ao filósofo Karl Popper, que defendia uma sociedade baseada na democracia, no individualismo crítico e no livre mercado. No texto, o termo é usado de forma irônica, sugerindo que este ideal de "abertura" na prática serve como uma fachada para imposições econômicas desiguais e controle geopolítico.

7 "Desocidentalizar": O termo "desocidentalizar" carrega múltiplos significados. Na discussão política, pode referir-se à criação de alianças e blocos (como o BRICS) que buscam construir um "contrapeso" ao poder econômico, político e militar tradicionalmente concentrado no Ocidente (EUA, Europa), como um projeto de "desocidentalização" do mundo. Em outros contextos, como o cultural, refere-se a recuperar a autenticidade de uma obra ou narrativa nacional, tirando-a da interpretação ou "lente" ocidental. No âmbito da ajuda humanitária, o termo sugere a necessidade de descolonizar as práticas de intervenção, evitando a imposição de soluções externas e respeitando as especificidades locais. A chamada a "desocidentalizar nossas lutas" no texto aponta para a necessidade de construir um internacionalismo que não seja guiado ou cooptado pelas agendas das potências ocidentais.

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