Casa de Apostas e futebol: quando o deserto do real mobiliza os afetos e expia para recolonização nacional
Estamos no epicentro de uma nova guerra híbrida, cuja uma das facetas podemos intitular de Bets.
Leonardo Lima Ribeiro
Sob certo prisma, a derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 foi uma vitória. Nada melhor do que o Brasil perder com o Neymar em campo. Sua última memória em uma Copa do Mundo é o registro de sua baixeza humana e esportiva. Quanto a isso há um consenso de razoável dimensão. Quem sabe assim o país se liberta do mito do menino Ney. É preciso se desfazer de tal crença para recriar culturalmente o futebol brasileiro. Em realidade, trata-se de um espectro que assombra e deforma toda uma maneira de ser na individualidade brasileira. É preciso exorcizar esse fantasma que inconscientemente se projeta como uma sombra sobre o país. Por isso, Ancelotti acertou errando ao colocá-lo em campo.
Lembremos também que é autoevidente que a derrota da seleção é parte das contradições internas do capital. Uma hora sua crise simbólica e a farsa perfumada que lhe serve de característica se apresenta como um circo patético, tal como pudemos ver no histrionismo do menino-produto que acaba de enterrar em definitivo a própria história esportiva (não tanto financeira), ao lado de toda uma geração corporocrática e financeirizada. Homens-mercadoria com o selo internacional da especulação e da lavagem de dinheiro.
Por outro lado, cabe aqui também uma mudança no ângulo de análise de conjuntura, deixando-a mais abaixo ser atravessada pela estrutura da economia política imperialista. Agora sob outra perspectiva, é viável o arremate: uma notícia deprimente para retirarmos o véu perfumado da contingência conjuntural.
É provável que as Bets tenham lucrado muito, mobilizando pessoas a apostarem na vitória da seleção, enquanto já tinham articulado reter um percentual enorme em torno da derrota do time nacional, às custas das apostas do povo brasileiro. Não é por acaso que recentemente foi divulgada a notícia exemplar de que 61% dos brasileiros que aderiram aos palpites patrocinados da CazéTV (mídia alternativa digital bancada pelas Bets e administrada pela XP e pela General Atlantic – um dos maiores fundos estadunidenses sediado em paraíso fiscal nas Ilhas Cayman) perdeu suas apostas e teve seu dinheiro retido pelas Bets.
Assim, especula-se que é muito provável que as Bets tenham lucrado milhões com o sentimento de esperança na vitória da seleção. Enquanto o povo apostava alto na vitória da seleção para "mudar de vida" mediante sequestro das suas emoções pela mídia de massas, as Bets (legais e ilegais) já tinham planejado a derrota inevitável. Ou seja, há imensa probabilidade de roubo generalizado da população do país às custas da alienação concretizada por mobilização afetiva.
É altamente factível que as Bets especularam para viabilizar a derrota da seleção, uma vez que cada aposta individual na vitória corresponderia a um percentual enorme de ganho das Bets, que apostava na derrota. Assim, alguns comentam que a derrota seria necessária para manter os lucros das Bets (Blaze etc.), que patrocinam diversos jogadores da seleção (lembrando que, fora esse problema, cada jogador recebeu da FIFA mais ou menos 2 milhões de reais pela derrota).
Algo grave, que ajuda na explicação de o por que Neymar (desconsiderando aqui os casos de Vinícius Jr., Matheus Cunha, Endrick etc.) foi não apenas convocado para agradar patrocinadores de outra espécie. Entrou em campo para consumar a derrota, enquanto correia de transmissão das casas de aposta (suas lágrimas de crocodilo ao fim da partida são parte de uma contradição interna de alguém pago para perder). Entrou no último jogo sob a sombra da Blaze ("casa" de apostas virtual, tendo antes faturado milhões durante o anúncio de sua convocação e mobilizar a população a logar na Blaze).
Eis o deserto do real, muito maior do que a frustração de torcedores que quebraram as suas televisões novas (ainda sendo pagas) por perderem a aposta para as Bets. Aqui, não se trata de descabida fantasia. Contudo, é para esse real que devemos olhar de frente, de modo a percebermos a dimensão do abismo que atualmente nos envolve. Avancemos no problema logo abaixo.
Além do que acima está denunciado, cabe aqui trazer à tona a hipótese de que, no limite, as Bets são uma tentativa de recolonizar o país. O que está em jogo não deixa de ser um modo de deixar o país de joelhos, em uma situação semelhante à de uma Cuba pré-revolucionária ou de uma China às vésperas da Guerra do Ópio. É na objetividade histórica que conseguimos apresentar os agravantes, observando o presente como diferenciação do passado (apesar das peculiaridades do passado em comparação com o presente, existem coincidências muito patentes, quando nos deparamos com o espelhamento das temporalidades aqui em questão).
Tal como a CIA produzia e exportava drogas para a América do Sul com a justificativa de posteriormente invadi-la para assassinar seus laranjas e quintas-colunas durante a segunda metade do século XX, hoje se utiliza das casas de aposta virtuais para inebriar os povos do Sul e destruir os despossuídos (a "solução" da alteração da percepção do Comando Vermelho e do PCC para a taxonomia de organizações terroristas é parte do pacote dos pretextos coloniais da atualização da doutrina Monroe/Donroe, que está por trás da dinâmica das casas de apostas também). Se a solução da embriaguez para recolonização não vem apenas pelo neopentecostalismo, emerge simultaneamente via cassinos virtuais e/ou pela circulação de muamba nas mãos dos novos "terroristas" (manufaturados pelo próprio imperialismo, o qual posteriormente os toma como inimigos – vide os casos exemplares de Saddam Hussein e Osama Bin Laden). Já vimos isso antes, na Colômbia, em Cuba, na Bolívia, na Nicarágua, no México etc.
Com isso, trata-se de dominar os povos e fazer seguir o fluxo de reapropriação de suas riquezas. Algo que se torna viável através da conquista das mentes e corações, atravessados pelas artificiais ontologias sociais do milicianismo, do agronegócio e sua cultura musical, do neopentecostalismo, do tráfico de drogas e das casas virtuais de apostas.
Nesse sentido, a pressão pela abertura de mercados de apostas virtuais no Brasil é parte de uma economia de guerra complexa que visa forçar a tomada do espólio dos países do Sul via pilhagem especulativa, sob os auspícios de inúmeros reforços e gatilhos ideológicos correspondentes. Tal economia de guerra tem sua unidade garantida por meio do sistema financeiro internacional dolarizado, o qual drena recursos dos países da América do Sul. Algo que ocorre através dos ajustes fiscais como fator impeditivo de gastos públicos, tornando os recursos tributáveis inamovíveis. Como sabemos, tais ajustes pertencem ao sistema da dívida pública, o qual emite títulos para a burguesia internacional improdutiva e lhe garante, mediante empréstimos, o repasse com juros do dinheiro do povo.
Tal financiamento de dívidas, muitas vezes fictícias (ou seja, inventadas), preenche também via títulos os déficits da economia estadunidense. Quando tal dívida não é paga e com tais ajustes fiscais em nações periféricas fixados, há como compensação a hipoteca de recursos naturais e de empresas nacionais. Com o dinheiro da dívida, financiam as guerras mundiais e seus genocídios correspondentes. Sem ele, hipotecam o país.
No caso das Bets, cabe então enfatizar que não deixa de ser uma derivação lógica desse processo de dominação e recolonização interna. É diretamente vinculada ao sistema expresso, com capilaridade especulativa ainda maior no bojo do território nacional. Consequentemente, não é por acaso que a extrema-direita é figura de proa na autoria interna desta tarefa de implosão de um país. Neste caso, não é preciso nenhum disparo ou invasão militar, ao passo que a regressão histórica é o horizonte final mediante consenso das massas desnorteadas. Estamos no epicentro de uma nova guerra híbrida, cuja uma das facetas podemos intitular de Bets.
REFERÊNCIAS
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