Economia e poder militar
A crise econômica que corrói as potências ocidentais afeta diretamente sua capacidade de financiar e manter os instrumentos de repressão global. O que se vê não é apenas uma crise econômica, mas um deslocamento estrutural, onde os antigos pilares da dominação econômica ocidental estão sendo corroídos.
Leonardo Lima Ribeiro e Humberto Rodrigues
Fernand Braudel, em seus estudos sobre a economia-mundo, evidencia que o mercado sempre operou sob uma estrutura de forças repressivas que garantem sua existência e funcionamento. Desde o mercantilismo até o liberalismo contemporâneo, o desenvolvimento do capitalismo se deu dentro de um arcabouço onde o Estado, o exército e instituições coercitivas atuam para proteger interesses econômicos e regular a concorrência em favor das potências dominantes.
Se entendermos o colonialismo como uma extensão dessas forças de repressão para além do território nacional, então podemos pensar que a expansão dos impérios europeus e, posteriormente, dos EUA, foi um meio de garantir a sustentabilidade do mercado internacional sob um regime de dominação. Essa relação entre repressão e mercado não apenas organizou a economia global, mas também estruturou a hegemonia política e militar das potências ocidentais ao longo dos séculos.
A crise atual dos Estados Unidos pode ser lida sob essa perspectiva: a perda do monopólio da repressão global, seja pelo enfraquecimento do seu poder econômico, seja pelo avanço de potências concorrentes, como China e Rússia, compromete sua capacidade de regular as dinâmicas do mercado internacional. A hegemonia americana, construída sobre um sistema de controle político, financeiro e militar, enfrenta desafios crescentes que abalam sua autoridade e a previsibilidade das regras que sustentavam a economia política ocidental.
Friedrich Engels, em sua análise sobre o papel da violência na história, destaca como a força militar está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento econômico. Ele aponta que "a violência é hoje o exército e a marinha de guerra, e ambos, como todos o sabemos, custam 'um dinheiro louco'." No entanto, "a violência não pode fazer dinheiro, quando muito pode saquear o que já está feito [...]. No fim de contas, portanto, dinheiro tem que ser fornecido por meio da produção econômica; a violência, uma vez mais, é portanto determinada pelo estado econômico, que lhe fornece os meios de se armar e de conservar as suas armas." Engels enfatiza que armamento, composição, organização, tática e estratégia dependem do nível produtivo e das comunicações de cada época, reforçando a relação entre poder econômico e capacidade militar.
Hoje, quem hegemoniza o mercado mundial é a China, ainda que lhe falte experiência em guerras, como EUA e Rússia possuem. Mas, cada vez mais associada à Rússia, Coréia do Norte e Irã a China, em um amplo Eixo da Resistência antimperialista de países oprimidos com seu poder econômico e tecnológico rivaliza com o sistema hegemonizado pelos EUA, que se encontra em decadência econômica e militar. Essa situação, está na base das atuais lutas de libertação da África Central, onde várias nações se rebelam contra o neocolonialismo francês; na resistência palestina, apoiada por Irã, Hezbollah, Houthis, contra a entidade sionista; ou na guerra contra a expansão da OTAN na Ucrânia, encabeçada pela Rússia, apoiada diretamente pela Bieolorússia, Irã e Coreia do Norte.
Nesse sentido, a perda das colônias – ou, em termos contemporâneos, a diminuição do poder de coerção sobre outras nações – mina as bases das chamadas leis "civilizatórias" do capital. A crise econômica que corrói as potências ocidentais afeta diretamente sua capacidade de financiar e manter os instrumentos de repressão global. O que se vê não é apenas uma crise econômica, mas um deslocamento estrutural, onde os antigos pilares da dominação econômica ocidental estão sendo corroídos. O que emerge desse processo ainda é incerto, mas a desordem geopolítica e econômica sugere que estamos em um período de transição, no qual o modelo hegemônico vigente parece perder seu referencial.
Esse último parágrafo dialoga com um artigo de Mike Gimbel, comunista estadunidense de longa data que publicamos há poucos dias que escreveu o artigo "EUA: há uma enorme diferença entre 2016 e 2024". Gimbel acertadamente disse:: "Os EUA de Trump não podem ser a Alemanha das duas guerras mundiais! A Alemanha era uma potência industrial! Os EUA estão desindustrializados! A Bolsa de NY não pode lutar uma guerra! Não produz nada!".
Como nos ensinou Engels, quem tem hegemonia econômica tende a assegurar a hegemonia militar, mas quem perdeu a corrida pelo mercado mundial, pela tecnologia e, sobretudo pela produção de mercadorias, tende a perder a hegemonia militar. Por maior que seja o poderio militar dos EUA em relação aos demais países do globo, não está distante a ultrapassagem dos EUA pela China e seus aliados, também no plano militar, movimento decisivo dos destinos da nova guerra mundial.
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